O obstinado - pequenas histórias rotineiras.


O obstinado - pequenas histórias rotineiras.

(...)
O purgatório. - Concluiu ao analisar cenas vagas em sua mente sobre fatos repetitivos. Poderia pensar em "De javu ou De jávì? Tanto faz. Ou quem sabe "transtorno obsessivo compulsivo"? Qua
l a melhor definição? Pensou.
A essa altura não sentia mais a mesma intensidade da dor que as frustrações lhe causara. Era apenas uma espinha inflamada.
Talvez a perturbação não fosse ocasionada pelos fatos intermináveis. O que o incomodava era a serenidade que sentia toda vez que vislumbrava novamente o fogo sem sentir o mesmo calor.
E se fosse um processo de purificação? Então se beliscou temendo estar morto, e riu de si mesmo. Com certeza não era o purgatório. Apesar de sentir-se tão perdido, o desejo por aquilo se tornara incontrolável de tal maneira que não conseguia julgar com clareza tais repetições como sendo ilusórias ou ainda um assunto inacabado.
Qual porta levaria ao fim? Qual a peça daquele quebra-cabeça ainda faltava?
Não conseguia entender. estava em pé próximo a única janela que havia em seu quarto – inerte - observando a chuva de verão e o movimento dos familiares se abraçando. Intruso ou ausente?

Sussurrou:

- Véspera de Natal todos se confraternizando e eu aqui perdendo meu tempo parafusando ainda sobre isso? Realmente não sei o que é mais inútil: eu ou o Natal. Há tempos sinto mãos e pés acorrentados e só sei os caminhos do passado. Sinto meus braços, minha mente e minhas pernas desfalecendo e ainda não consegui decifrar o segredo deste jogo. E eu sei jogar! O problema é que não consigo me satisfazer com tão pouco. Mas parece que o criador das regras não sente grande apatia por mim. Deve ser divertido ver alguém trancafiado em um quarto escuro deixando a vida passar e também as pessoas em busca de um sonho. Pois bem, pode rir, se tenho aptidão para carregar na testa o apelido de palhaço, alienígena e vagabundo que assim seja, porque não volto atrás. Só consigo enxergar um único caminho para me libertar: é quando conseguir finalmente abrir aquela porta.
(...)

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Catia P.

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