Por Kalel Jones: Dedicação em tempo integral, importância do estudo para concursos e preconceito contra concurseiros


Há quem pense que, ficando sem trabalhar, aumentará as suas chances de passar em concurso ou encurtará o tempo necessário para a aprovação. Por isso dão um jeito de se dedicarem exclusivamente para concursos, sendo amparados por terceiros, vivendo de "pé de meia" ou outra fonte de renda.
Estudar é o ingrediente mágico para passar em concurso público. Logo,quem tem grande disponibilidade de horas para se dedicar a essa tarefa, teoricamente,  poderá assimilar uma quantidade diária de conteúdo muito maior do que aqueles que têm um tempo reduzido para se prepararem para concurso.

Claro que essa vantagem é mais nítida em concurso "grande, cujo conteúdo programático é extenso, típico de cargo de nível superior. Mas isso pode ser combatido por candidatos que, embora não se preparem por uma longa jornada diária, são bem disciplinados e organizados, a ponto de chegarem ao dia da prova tendo estudado todo o programa. Entretanto organização, disciplina e vantagem não fazem parte do foco deste texto, então encerro por aqui.


Mas essa decisão ousada pode gerar tantos problemas e pressões sociais para o candidato, afetando seu equilíbrio emocional, prejudicando o seu estudo, que talvez seria melhor se ele continuasse no trabalho. 

Resumo de alguns dramas vivenciados por candidatos que optaram por se dedicar em tempo integral:

A uma amiga não-concurseira, candidata comenta que precisa tomar remédio para dormir, porque anda nervosa, com insônia, agitada... Então aquela responde ao semelhante a: "Isso é falta de trabalho. Vai carpir uma roça, que você fica calma, chega cansada e dorme, sem tomar remédio!"

Namorada que termina com concurseiro e justifica: "tenho vergonha de dizer para as minhas amigas que você não faz nada na vida"

"Antes de passar em um concurso, as pessoas queriam que eu trabalhasse de qualquer maneira, mesmo que fosse um trabalho escravo..." 

Crianças, filhas de parentes, ouvem conversas e falam para o candidato: "Por que você presta concurso, se você nunca passa?" 

Ouvir sempre:"Já está trabalhando? Ainda nessa de concurso? Ainda não percebeu que isso não é para você? Quando vai desistir? Você está perdendo tempo!"


Apesar dos seus 20 e poucos anos, um indivíduo teima em  lhe perguntar, sarcasticamente: "você é aposentado?"

As pessoas vivem lhe pedindo favor, já que é um "à toa", mas não compreendem quando o pedido é negado.

Acham que é impossível passar em concurso público, mas, depois que o candidato realiza a prova, insinuam que ele é burro por não ter passado e que, na verdade, ele não fazia nada, quando dizia que estava estudando.

Mesmo tendo um dinheirinho para se divertir ou viajar, de vez em quando, não é convidado pelos amigos, que o julgam um quebrado,um durão, por não trabalhar.

Ouve sempre que não é ninguém. Que é um inútil. E passa sempre vergonha nas reuniões familiares ou quando encontra um amigo e troca novidades.

Que o que dá futuro é faculdade, e não estudar para concurso.

Pessoas deixando o candidato falando sozinho, quando ele diz que só estuda. 

Com raiva dele, porque ele não acorda cedo para pegar ônibus lotado para ir trabalhar.

Quando o concurseiro tenta ter um momento de social, se dar um descanso e ir a uma festa, um grotesco elemento tenta  fazê-lo se excluir, dizendo algo do tipo: "O que está fazendo aqui? Você não se dedica só a concurso?

E quando as pessoas especulam que o concurseiro vive de assalto...


Pode parecer bobagem tudo que foi expresso acima, mas só quem sente isso sabe o quanto magoa. Uma vez ou outra, ainda vai. Mas passar por isso toda semana, quase em todas as interações. Perceber que uma estratégia do concurseiro de melhorar de vida prejudica sua amizade de anos, seu vínculo familiar e a sua imagem no seu círculo social e por que não dizer na sociedade, já que, muitas vezes, uma pessoa é considerada de bom caráter pelo simples fato de ter um trabalho?

Vivemos em um País onde o estudo não é muito valorizado por boa parte da população, o ensino público, o qual é o meio de aquisição de conhecimento da maioria do povo,  deixa muito a desejar e impera a crença de que há desonestidade nos concursos públicos.

De vez em quando, vemos, realmente, notícias de fraudes em concursos. Mas continuamos a prestar, com a confiança de termos um concurso honesto, já que não devemos deixar de fazer as coisas por medo de que aconteça com nós, também.

Também é complicador dizer para pessoas que não quiseram e não gostam de estudar que estamos nos preparando para concurso público, ou seja, objetivamos tirar nota maior do que outras pessoas que também estudaram. Para pessoas que têm aversão ao aprendizado, é como se fizéssemos duas coisas idiotas: estudar e se inscrever em concurso!

É, de certo modo, compreensível por que muitos concurseiros são menosprezados, principalmente, acredito, os que se dedicam em tempo integral ou que, mesmo não estudando por todo esse tempo, não exercem atividade remunerada. (afinal, ninguém é obrigado a estudar durante todo o seu tempo livre. Vai da escolha de cada um)
Mas nem tudo que é compreensível é sensato! 

O estudo é valorizado por quem precisa dele. 
Quem aproveitou bem o tempo para estudar é "O Cara" (ou um "Dos Caras") diante daqueles que vão prestar alguma prova.
Ano passado, eu fui a um local onde haveria o exame da Ordem. Sei que, geralmente, 80% dos inscritos são reprovados. A cada 10 pessoas que passavam por mim, eu me perguntavam: quem serão os 8?
E eu pensava: talvez muitos daqui gostariam de estudar em tempo integral e virem aqui fazer uma boa prova.
Em concurso, após prova, já vi muitos candidatos lamentarem porque não estudaram.


Não precisamos do apoio da sociedade ou, mais restritamente, do nosso círculo social. Basta termos a consciência de que fazemos o que é correto (estudar) para atingirmos nosso objeto, independentemente de quantas tentativas necessárias tenhamos que realizar.

Kalel Jones

6 comentários:

Luciana disse...

Nossa... me vieram muitas lembranças à mente lendo esse artigo. Me recordo em especial de uma vez em que passou no Jornal Nacional um número estrondoso de vagas de trabalho na iniciativa privada que eram criadas a cada dia ou mês, sei lá. me lembro que o número era 10 mil. Nesse instante meu namorado daquela época se levantou do sofá, apontou a cidade pela janela e disse: "veja, tantos empregos vagos todos os dias e vc não faz nada, sua inútil, por que não sai por aí pela cidade catando alguma ocupação. Vc é uma m* mesmo, não presta pra nada!!"

Tenho a felicidade de contar que há muito já não convivo com essa pessoa, e há quase dois anos sou servidora pública federal. Sabem o que ele disse quando soube da minha vitória: "Eu sempre soube que vc conseguiria, sempre te apoiei"

Risos né

Sílvia disse...

E como isso acontece! Acredito que com todo concurseiro é assim! E quanto mais o tempo passa, pior ficam as insinuações, as cutucadas... E assim, sua autoestima vai diminuindo, porque vez ou outra você acaba duvidando de sua capacidade também.

O mais difícil dessa situação não são esses julgamentos, mas como lidar com a mágoa que eles nos causam, como não se deixar abater para poder seguir em frente.

Anônimo disse...

Nossa Cátia lendo esse artigo vi minha vida atual sendo relatada. A última que ouvi esse final de semana em uma festinha familiar: Vc esta estudando para astronauta? Eu respondo: Não entendi? A "pessoa"fala: Pq vc estuda, estuda e não passa em nada! Muita raiva desse tipo de gente...mas isso só me dá força pra estudar cada vez maissss...

Kalel Jones disse...

Obrigado a todos que dedicaram um pouco do seu tempo para apreciar o meu artigo.
Agradeço mais ainda pelos comentários!

Kalel Jones disse...

Luciana, eu ri da cara de pau do seu namorado daquela época!
O cara te chamava de inútil, mas, depois, quando você passou, disse que sempre te apoiou...rs
Tem que ser muito fingido,mesmo, para inventar uma mentira dessa!rs
Mas você deu a sua melhor resposta: se tornou servidora federal! Parabéns!
Obrigado por partilhar a sua experiência!

Kalel Jones disse...

Sílvia,
Só o tempo tentando passar já faz BALANÇAR a nossa autoestima, nos fazendo duvidar de nossa capacidade, isso somado a insinuações e cutucadas faz um TERREMOTO.
Como você mesma falou, o mais difícil disso tudo é lidar com a mágoa. Acho que cada um tenha o seu modo particular de encarar isso. Você pode receber conselhos muito bons para lidar com isso, mas dar mais ênfase a mágoa,tornando-se surda para as boas palavras.
Tentarei refletir melhor sobre isso e trabalhar em um próximo artigo!
Prosperidade a você!
Abraço,