Os estudos precisam ser sofridos???

Se vamos à biblioteca estudar ou assistir aula num curso preparatório numa tarde de sábado ensolarada, pensando nas pessoas que estão na praia ou no clube, o deslocamento e a experiência vivenciada tende a ser sofrida. Certo? Se vamos à mesma biblioteca estudar ou ao mesmo curso preparatório numa manhã fria e chuvosa de domingo, a sensação experimentada será desagradável na mesma intensidade? Provavelmente, não!

E o que estas constatações indicam?

Primeiramente, a relatividade da sensação de desprazer e/ou sofrimento nas mencionadas experiências e situações envolvendo os estudos.

Hoje temos o que chamo de industria psicológica do sofrimento, no contexto da preparação para concursos e exames, alimentadas por manifestações que reforçam tal visão negativista do referido processo, inclusive muitas vezes de forma inconsciente e não intencional. Colocações no sentido de que o concurso público é uma batalha, uma guerra, uma dor, um sofrimento, um combate, uma luta a ser travada contra um inimigo invisível, acabam por contribuir com a mencionada visão. (clique aqui para ler o texto Concurso Público não é Guerra).

A identificação da mencionada relatividade do sofrimento ou do desprazer, influenciada pelo referencial considerado (tarde de sábado ensolarada e manhã de domingo chuvosa) pode ser um elemento de desconstrução da referida visão negativista.

Outra grande conclusão consiste na compreensão de que a forma de percepção da realidade traz uma série de conseqüências, positivas ou negativas.

Ou seja, vamos enxergar o copo meio-cheio ou meio-vazio? A quantidade de água e o tamanho do copo são as mesmas, em ambas as constatações.

O neurologista e neurocientista Antonio Damásio, uma das maiores autoridades na área atualmente, autor de uma recente tese que tem revolucionado diversos campos do saber, segundo a qual a emoção consiste num componente importante da racionalidade – quebrando um paradigma reforçado na idade moderna com a visão de mundo cartesiana, apresenta algumas construções de grande utilidade.

Segundo o autor, “se você olhar pela janela para uma paisagem de outono, se ouvir a música de fundo que está tocando, se deslizar seus dedos por uma superfície de metal lisa ou ainda se ler estas palavras, linha após linha, até o fim da página, estará formando imagens de modalidades sensoriais diversas. As imagens assim formadas chamam-se imagens perceptivas. Mas você pode agora parar de prestar atenção à paisagem, à música, à superfície metálica ou ao texto, e desviar o pensamento para outra coisa qualquer…Qualquer desses pensamentos é também constituído por imagens, independente de serem compostas principalmente por forma, cores, movimentos, sons ou palavras faladas ou omitidas. A natureza das imagens de algo que ainda não aconteceu, e pode de fato nunca vir a acontecer, não é diferente da natureza das imagens acerca de algo que já aconteceue que retemos….Não sabemos, e é improvável que alguma vez venhamos a saber, o que é realidade absoluta”. (O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 123/124).

Com isto, fundamentado nas referidas colocações, o desafio e provocação que proponho consiste emtrabalhar nossas percepções e a forma como construímos nossa realidade, ao longo do processo de preparação para o concurso públicos e exames.

E como fazer isto?

Conforme tenho sustentado de maneira reiterada, o primeiro passo importante consiste na tomada de consciência e compreensão de nossos processos e mecanismos comportamentais, emocionais e cognitivos.

Inclusive, talvez muitos já tenham desenvolvido de forma intuitiva a capacidade de contar com a mencionada compreensão.

A partir da minha experiência, refletindo sobre o meu próprio processo de preparação, destaco alguma atitudes que entendo passíveis de avaliação:

- quando for à biblioteca, à aula ou a outro local de estudo, evite ir pensando e construindo imagens sobre o contexto no qual você gostaria de estar. É bem verdade que esta atitude poderia ser usada como fonte de motivação e estímulo ao esforço, mas talvez o risco de geração de sensações negativas seja elevado;

- procure se deslocar para o referido local com um espírito leve. Isto é, procure dar leveza à referida atitude, não a transformando em algo pesado e carregado. Afinal, não é possível que a mobilização de nossas estruturas cognitivas possa ser considerada uma tortura. E obviamente que o local de estudo pode influenciar;

- eu tinha a sensação de que uma determinada biblioteca onde algumas vezes estudava consistia num local mais pesado, no qual as pessoas que lá freqüentavam se olhavam com olhos de concorrentes. Já outra biblioteca, pela qual tinha preferência, considerava o ambiente mais leve, o que entendo ser reflexo inclusive do traje das pessoas. Esta segunda biblioteca era a da Universidade de Brasília, freqüentada não apenas por concurseiros, que alimentavam a mencionada tensão do contexto da preparação, mas também por estudantes de graduação, os quais viviam um momento de vida completamente diferente. E eu procurava me nutrir deste espírito dos alunos da graduação;

- ao me deslocar e durante os estudos, procurava nutrir e vivenciar o prazer em aprender (clique aqui para ler o texto Preparação para Concursos e Prazer em Aprender);

- ainda neste espírito do prazer em aprender, também procurava pensar não no clube, mas no quanto avançaria no meu plano de estudos, o quanto avançaria em termos de conhecimento intelectualmente apropriado, bem como na sensação de que viria a experimentar teria no final do dia, tendo cumprido aquilo que me propus a fazer.

Naturalmente que várias outras atitudes podem ser adotadas. Inclusive peço que, se você tem alguma sugestão a partir da sua experiência, coloque no final do texto, não apenas para colaborar, mas para que se transforme em material de pesquisa.

Esta tentativa de mudança de percepção da realidade também pode ocorrem em relação ao processo de realização de provas. Podemos ir fazer a prova com o espírito do sofrimento ou do desafio e autosuperação.

No filme Matrix há um conhecido trecho no qual o personagem Morpheus dá opções de pílulas ao personagem Neo, sendo que cada uma o levaria para realidades distintas. Apropriando-me de forma metafórica da referida passagem, entendo que é possível ao candidato a concursos públicos e exames fazer da sua preparação algo mais ou menos sofrido. Então, qual pílula você pretende tomar?

http://www.concursospublicos.pro.br/duvida-do-candidato/concursos-publicos-motivacao-sem-sofrimento-como-motivar-percepcao?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+BlogDoProfRogerioNeiva+%28Blog+do+Prof.+Rogerio+Neiva%29


2 comentários:

CaOficial disse...

Concordo com você, Cátia!! Acho que TUDO o que fazemos com amor certamente rende bons frutos. O grande truque, para mim, é separar um dia ou dois apenas para o meu lazer: namorar, tomar uma cerveja com as amigas, brincar com a sobrinha, ir ao shopping... Porque são esses períodos que me deixam preparada para as próximas oito horas de estudos, por exemplo! Isso faz com que eu não me sinta em uma guerra contra a banca organizadora rs. Além do que, sempre penso o seguinte: concursos vão ter vários, mas e a presença das pessoas que amo? Será que as terei para sempre? Dinheiro, estabilidade, tudo isso é MUITO importante, mas não acho que são as coisas mais importantes da vida.

Marcia Leidinger disse...

Conheci hoje o blog, e essa foi a primeira matéria que li: ADOREI!!!
Minha rotina é bem equilibrada, estudando de manhã, antes de ir para o serviço, e dando só uma revisada em alguma coisa de noite, antes de dormir.
Aos sábados, quando não estou em curso, procuro estudar o máximo possível (em casa sempre sou interrompida, mas ainda assim estudo bastante). Aos domingos, me limito a terminar o que tinha programado para sábado e não deu tempo. Mas, ATENÇÃO: Eu só faço programação de estudos para sábado, calculando cerca de 8 a 9 horas de estudo. Apenas o que não dá para fazer noi sábado é que fica para domingo. Assim, sempre tenho mais da metade do dia (quando não o dia todo)para minha família e meus amigos mais chegados.