Teto de vidro

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...
A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia...

A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!

— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...

Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida...



(Por Catia - Quando construímos um Teto de vidro, paramos de julgar, e simplesmente aceitamos as coisas como elas são, e somos mais felizes, mais leves). Máscaras só servem para coser o rosto de quem as usa. Andar sobre a vida é como pisar em cascas de ovos. Metaforicamente, trocar telhados velhos por vidros, nos traz mais cautela, clareia os pensamentos, mostra melhor e de fato quem somos.
"Ubuntu*".

* ...."humanidade para com os outros"...Ubuntu é uma ética ou ideologia de África
*




Coloque uma telha de vidro em sua vida!

Não há soluções fáceis para uma sociedade que perdeu o norte. De pouco adiantam medidas de caráter prático quando não se identifica as verdadeiras causas e se persevera no erro” (AD)

Rachel de Queiroz, nasceu em Fortaleza - CE, no dia 17 de novembro de 1910, filha de Daniel de Queiroz e de Clotilde Franklin de Queiroz, descendendo, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar (sua bisavó materna — "dona Miliquinha" — era prima José de Alencar, autor de "O Guarani"), e, pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas em Quixadá, onde residiam e seu pai era Juiz de Direito nessa época.

Em 1930, quando tinha apenas 19 anos, lançou o livro O Quinze, onde a seca passou a ser não apenas o ambiente, mas o próprio personagem da história narrada. Rachel de Queiroz foi a primeira escritora a integrar aAcademia Brasileira de Letras, em 1977.

Faleceu, dormindo em sua rede, no dia 04 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro.

No ano de 2010 ocorreram vários eventos em comemoração ao centenário do nascimento da escritora, inclusive com lançamentos de obras de Rachel - entre eles Mandacaru, livro com 10 poemas, escritos quando ainda era muito menina.

2 comentários:

Brasigrega disse...

Obrigada pela visita. Estou te seguindo também!

bjussss

CatiaPipoca disse...

Adorei o teu espaço. Sempre que puder estarei dando aquela espiadinha. Seja bem vinda.